O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), criticou
nesta sexta-feira o que classificou de excessos cometidos pelo
Ministério Público em acordos de delação premiada e afirmou que o órgão
vive uma hipertrofia no Brasil.
Mendes afirmou que a lei da
delação premiada, que prevê sigilo nas informações passadas pelo
delator, está sendo reescrita pelo MP. Segundo ele, os procuradores vêm
obrigando o delator a renunciar a esse sigilo e vêm divulgando os
conteúdos das acusações amplamente.
“Até as pedras sabem que
quando o legislador estabeleceu esse sigilo, fez não apenas no intuito
de proteger o delator, mas também os delatados... É um contrato que o
colaborador faz com o MP que repercute na esfera de terceiros, logo o
terceiro tem que ser protegido", disse Mendes em evento na associação
comercial do Rio de Janeiro.
“Em geral, tem se feito acordo e o
delator autoriza a divulgação --e a lei proíbe e diz que é só quando da
aceitação da denúncia. E isso será debatido. Vamos rediscutir, e insisto
que o melhor é aplicar o que está na lei”, disse o magistrado a
jornalistas.
Mendes afirmou que o instrumento da delação premiada é
"relevante" e "extremamente útil", mas ao criticar a atuação dos
procuradores, afirmou que não se pode combater o crime cometendo outros
crimes e apontou o que chamou de "hipertrofia" tanto do Ministério
Público quanto da Polícia Federal.
"Nesse momento passamos a viver
uma hipertrofia e hipostasia do Ministério Público... aqui notoriamente
se estabeleceu um desequilíbrio que tem consequências ao sistema como
um todo", disse o ministro.
“O Brasil passou por grande depuração,
mas temos coisas a aprender... Em algum momento há também hipertrofia
da Polícia Federal. Como as operações vinham dando certo e isso vinha
sendo referendado, mas agora começam a surgir os problemas, mas acho que
em breve teremos uma reinstitucionalização.”
Mendes, que também é
presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), disse ainda que a
reforma política que deve ser aprovada pelo Congresso será pouca diante
das necessidades de mudanças políticas e eleitorais no Brasil. Ele
acredita que a nova denúncia da Procuradoria-Geral da República contra o
presidente Michel Temer atrapalhou um melhor resultado.
A segunda denúncia contra Temer deve ser votada na Câmara dos Deputados até o dia 23 de outubro.
“Tivemos
uma chance de fazer a reforma, mas houve denúncia contra presidente e a
energia política que o Congresso talvez devesse devotar na reforma
política e o tempo ficaram muito escassos”, avaliou.
“O
resultado não será auspicioso... será muito pouco", disse Mendes,
acrescentando que a eventual aprovação pelo Congresso do fim das
coligações proporcionais e da adoção de uma cláusula de barreira “já
seria um grande ganho”.
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