AFP
| Chanceler alemã Angela Merkel discursa após o fim das eleições em que conquistou o quarto mandato |
| Alexander Gauland, do partido de ultradireita AfD, no dia 24 de setembro de 2017 |
Angela Merkel e os conservadores alemães ganharam as eleições deste
domingo, mas se viram enfraquecidos pelo avanço histórico da
ultradireita e pela dificuldade para formar uma aliança de governo.
"Terremoto
eleitoral", resumiu o jornal Bild em sua página na internet, apontando
que, com 32,9% dos votos apurados, a CDU-CSU registrou "seu pior
resultado desde 1949" e que os social-democratas do SPD (20,8%)
"obtiveram seu pior resultado de todos os tempos", enquanto que os
ultradireitistas do AfD (13%) se impuseram como "terceira força
política" do país.
Merkel, no poder há 12 anos e três mandatos,
admitiu que esperava um "melhor resultado", e advertiu que a entrada da
ultradireita no parlamento impõe um "novo desafio".
A chanceler
terá que buscar pela quarta vez um ou vários parceiros para formar seu
próximo governo, já que os social-democratas anunciaram que não voltarão
a governar com os conservadores.
O grande perdedor das eleições
foi Martin Schulz, líder do SPD, que lamentou um "dia difícil e amargo
para a social-democracia".
Ainda não se sabe como será partilha
de entre 600 e 700 assentos, em razão da complexidade do sistema de
votação alemão. Mas uma coisa é certa: a única maioria que Merkel pode
esperar passa por uma aliança com os liberais do FDP e com os Verdes.
O
principal obstáculo desta opção está no fato de ambos os partidos
defenderem posições opostas em diversos temas, como a imigração e o
diesel.
As negociações poderão durar até o final do ano, e Merkel
não será nomeada chanceler até que forme uma nova maioria. Além disso,
Merkel descartou qualquer governo que se apoie em maiorias flutuantes.
- Manifestações anti-AfD -
A vitória de Merkel foi ofuscada pelo histórico avanço da
ultradireita do AfD, que conseguiu cerca de 13% dos votos, segundo as
pesquisas de boca de urna.
"Vamos mudar este país [...] Vamos
expulsar a senhora Merkel. Vamos recuperar nosso país", lançou Alexander
Gauland, um dos líderes do AfD.
Será a primeira vez desde 1945
que um partido revisionista e contrário ao islã, às elites, ao euro e à
imigração entra na câmara dos deputados alemã.
O AfD ficou à frente da esquerda radical de Die Linke (9%), dos liberais do FDP (10%) e dos Verdes (9%).
Nas
regiões da antiga Alemanha oriental, os nacionalistas chegaram a se
impor como segunda força, com 22,8% dos votos, atrás da CDU (28,6%).
Várias
cidades alemãs foram cenário de protestos espontâneos anti-AfD,
começando por Berlim, onde centenas de pessoas, custodiadas pela
polícia, se concentraram em frente ao local onde o partido comemorava os
resultados.
- Comunidade judia preocupada -
A AfD avançou
vários pontos ao final da campanha, apesar de ter radicalizado seu
discurso e de ter pedido aos cidadãos que se sintam orgulhosos dos
feitos dos soldados alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Algo nunca
visto em um país cuja identidade desde o final da guerra foi construída
com base no arrependimento pelo nazismo e na rejeição ao extremismo.
A
comunidade judaica denunciou o programa "infame" do AfD, que quer pôr
fim ao arrependimento alemão pelos crimes nazistas. "Voltam os fantasmas
do passado", alertou a revista semanal Der Spiegel.
Durante a
campanha, o partido chegou a dizer, entre outras coisas, que a Alemanha
se tornou "refúgio de criminosos terroristas do mundo inteiro", além de
denunciar a "traição" de Merkel, de 63 anos, por ter aberto as portas em
2015 a centenas de milhares de solicitantes de refúgio, na maioria
muçulmanos.
Neste contexto, Merkel terá que dialogar com seus
aliados bávaros da CSU e à ala mais conservadora da CDU, que pediram
reiteradamente à chanceler que escutasse seus militantes da ala mais
radical, que a acusam de ser muito centralizadora.
"Nos
descuidamos de nossa ala direita e agora teremos que preencher o vazio
com posições mais claras", declarou o chefe da CSU, Horst Seehofer.
O
AfD "é competência da união [cristã-democrata] e da família
conservadora em geral [...] se abre um período muito difícil para a
chanceler", explicou Lothar Probst, cientista político da Universidade
de Bremen.
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