São Paulo – O PSDB
já foi uma força política considerável no espectro brasileiro, mas nos
últimos meses tem precisado lidar com vários focos de atrito internos: a
guerra fria travada entre João Doria
e Geraldo Alckmin pela candidatura à presidência; as condenações do
senador Aécio Neves, que estão arrasando a carreira política do mineiro,
e a própria liderança do presidente da sigla, Tasso Jereissati, que não
é unanimidade no partido.
Além disso, as configurações
partidárias e eleitorais do cenário nacional pressionam a legenda a se
reinventar se ainda quiser manter seu espaço no jogo de forças do poder –
embora esse espaço dificilmente volte a ser do mesmo tamanho que já foi
um dia, devido à pulverização de lideranças na centro-direita
brasileira.
Um indicativo dessa perda de relevância é que nem
Alckmin nem Doria iriam para o segundo turno se a eleição fosse hoje,
tanto segundo o Datafolha (ambos ficariam atrás de Lula, Bolsonaro e Marina Silva) quanto de acordo com o Paraná Pesquisas (qualquer um dos dois ficaria em terceiro lugar mesmo sem Lula na corrida).
EXAME.com
conversou com quatro analistas políticos para entender o momento que o
partido vive, e quais são os percalços internos e externos que o PSDB
vai precisar superar se quiser sair da eleição de 2018 com algum fôlego
político.
A diplomacia interna
Com o destino de Aécio
Neves, presidente do partido, balançando por um fio, o foco das atenções
se volta para a disputa interna entre o governador do estado de São
Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito da capital, João Doria.
Para
Hilton Cesário Fernandes, professor de pós-graduação em Ciência
Política na FESPSP, a “guerra fria” faz parte de um jogo de cena comum
em períodos de definição para futuras eleições.
“O importante
agora é que os dois estejam na mídia, ainda que dessa forma negativa,
para testar o apoio político e popular a cada um dos candidatos”,
sugere.
Por sua vez, Bolívar Lamounier, cientista político e
sócio-diretor da Augurium Consultoria, acredita que o caminho natural
para o partido é aceitar que Geraldo Alckmin é o candidato, e abandonar o
apoio a Doria.
“Deixar o cargo para se candidatar antes da metade
do mandato e ainda por cima mudar de partido ensejaria uma forte
desaprovação na opinião pública. Só o vejo candidato na hipótese de a
eleição se polarizar muito e ele aparecer como um candidato mais
competitivo que o Alckmin”, opina.
Já para Sérgio Praça, professor
do FGV CPDOC, a saída de Doria do partido seria até natural. “O Doria é
um sujeito que por acaso está no PSDB, mas poderia estar em qualquer
partido de centro-direita. Seria até natural, considerando que um
candidato desse espectro tende a ter bastante chance no ano que vem”,
afirma Praça.
O protagonismo nacional
As disputas
internas, no entanto, parecem até contornáveis quando se encara o
cenário de perda de protagonismo do partido no jogo político nacional.
Carlos
Ranulfo Felix de Melo, professor de Ciência Política da UFMG, explica
que o PSDB dificilmente vai voltar a ter a mesma expressividade que teve
até hoje nas eleições nacionais e até estaduais, e por uma simples
razão: seu destino é gêmeo ao do PT.
“A questão é que, enquanto o
PT esteve no poder, o PSDB era o partido mais sólido da centro-direita.
Virou, então, um grande guarda-chuva para quem fizesse oposição. Quando o
PT caiu, muitos dos partidos que apoiavam o PSDB perceberam que não
precisavam ficar embaixo desse guarda-chuva. Também quiseram
protagonismo”, explica Ranulfo.
A lógica desse movimento, segundo o
professor, é a seguinte: “A direita mais conservadora se aliou ao PSDB
para combater o PT nos últimos dez anos. Se o PT se enfraquece, não
precisa mais se unir”.
Para Cesário, da FESPSP, essa fragmentação
da centro-direita também tem por efeito simplificar o debate no pleito
do ano que vem.
“Vai ser a eleição do programa de oposição. Por
exemplo, se o Doria for candidato, seu discurso vai ser no sentido de
‘impedir a volta do Lula e do PT’. O discurso do PT vai ser ‘impedir
outro governo como o de Temer’ – e assim por diante”, diz.
Um
caminho possível para o PSDB, nesse aspecto, seria retomar as alianças
regionais, que eram uma prática comum quando o partido esteve no poder.
“Ao
longo do tempo o PSDB foi se afastando de lideranças regionais de
outros partidos, mas não houve um rompimento”, diz Hilton Cesário. “Esse
é um processo que acontece longe do olhar do eleitor, mas pode ser
muito importante para o partido”.
A ideologia e o programa
Além
da perda de protagonismo, os tucanos também sofreram outra baixa nas
últimas décadas: o “roubo” de seu programa por outros grupos políticos. O
partido está sem sustentação ideológica, afirma Sergio Praça, da FGV.
“O
PSDB defendia a responsabilidade fiscal e a diminuição da desigualdade.
Mas em 2002 o PT veio e abraçou a bandeira da distribuição de renda.
Sobrou a responsabilidade fiscal e as privatizações para o PSDB. Mas
isso o governo Temer também acabou de tirar deles. Se alguém for
capitalizar sobre esse discurso, vai ser o Meirelles”, explica Praça.
Para
Carlos Ranulfo, o núcleo original foi perdendo relevância, dando espaço
para uma orientação mais conservadora. “O núcleo histórico perdeu
espaço, o mais social democrata, de FHC, Serra, Covas, a geração que
construiu o partido. O PSDB perdeu a referência e tornou-se um partido
muito mais conservador”, afirma.
Para Sérgio Praça, o PSDB só é social democrata no nome. A desfiliação do economista Gustavo Franco
foi emblemática para apontar a “irrelevância” do partido no que se
refere a ideias para o país, apesar de Franco nunca ter se engajado em
atividades propriamente partidárias, diz Praça.
O problema, no
entanto, é que o número de partidos conservadores com algum peso na
balança vem aumentando. “O Novo surgiu nesse espaço, o PSD também”,
lembra Hilton Cesário.
Não sou conduzido
Para coroar, as
vozes insatisfeitas dentro do partido não param de se multiplicar. Parte
da ala mais jovem defende que o PSDB desembarque do governo Temer. Os
caciques tradicionais brigam para continuar.
Segundo a Folha de S.Paulo,
deputados já teriam ameaçado deixar o partido para forçar a saída de
Tasso Jereissati da presidência interina (ele é contra o governo Temer).
Por outro lado, o apoio a Aécio Neves, afastado do mandato, se tornou
constrangedor dentro do próprio partido.
O problema, segundo
Alberto Goldman, ex-governador de São Paulo, é que o partido tem muitas
cabeças pensando sozinhas sem encontrar um denominador comum. Em um artigo publicado em agosto,
ele afirma que a legenda “tem sido um amontoado de ideias individuais e
de interesses privados de dirigentes que objetivam seu próprio futuro”.
Mario Covas Neto, vereador de São Paulo, fez a mesma crítica em uma entrevista ao podcast do Estadão:
“o PSDB vem falhando no debate interno. Você tem pouca discussão sobre
objetivos, e cada ente político se vê liberado para tomar a posição que
acha mais conveniente”.
Sem uma unificação do partido em torno de
uma proposta comum, o PSDB corre o risco de passar a campanha de 2018
apenas reagindo à agenda nacional. “A verdade é o que PSDB não conduz
mais o cavalo da História. É conduzido por ele”, conclui Praça.
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